Como estruturar cenas: o segredo da construção de causa e consequência
Introdução
A estrutura de uma cena é
provavelmente a parte mais negligenciada em guias de escrita, mesmo sendo onde
o conflito acontece de fato. A maioria das histórias não é abandonada por ser
ruim, mas porque as cenas não conseguiram segurar a atenção do leitor. Mesmo
histórias com uma estrutura sólida e bem pensada podem ficar maçantes de ler.
O que realmente mantém o leitor
grudado e virando as páginas não é o arco geral (este garante apenas que a
história seja satisfatória ao final), mas sim a forma como suas peças estão se
encaixando capítulo por capítulo. Felizmente, isso é algo que pode ser
estudado, aprendido e estruturado. Então, eu quis juntar tudo o que sei sobre o
assunto para tentar desmistificar a engrenagem desse processo.
Do que é feita a estrutura de uma
cena?
Novamente, meus estudos se
baseiam nos artigos da K.M. Weiland (Helping Writers Become Authors), nos quais
ela fala sobre o método ensinado por Dwight Swain. A base da estrutura é que
existem duas partes em uma cena: a Cena e a Sequência.
Os: Eu vou usar “Cena” com a
letra maiúscula para me referir à parte da estrutura do Dwight, e “cena” com
minúscula para me referir ao acontecimento geral.
A parte “Cena” é onde a ação
acontece, enquanto a parte da “Sequência” cuida da reação. O desenvolvimento
segue o processamento humano de objetivo, conflito, reação e dilema, ficando
mais ou menos assim:
Cena:
Objetivo: o que o personagem
quer.
Conflito: o que o impede de
conseguir.
Desastre: o resultado do
conflito.
Apesar do nome, o Desastre pode
ser qualquer coisa: um papel rasgado, uma briga feia ou até tirar 9 ao invés de
10 em matemática. O importante é: algo dá errado para o protagonista. O
Desastre responde à pergunta: “O protagonista conseguiu o que queria?” com uma
destas respostas:
Sim, mas... = O objetivo da Cena
foi alcançado, mas com um imprevisto.
Não, e... = O objetivo da Cena
não foi alcançado, e a situação ainda piorou para o protagonista.
Isso acontece porque, se o
personagem conquistar seu objetivo de cena sem problemas, imprevistos ou alguma
consequência negativa, o peso do conflito diminui consideravelmente, e a
história parece fácil ou conveniente demais. Além disso, não haveria nada que o
pressionasse a decidir o que fazer depois. O “mas” depois do “sim” garante que
haja uma continuação na sequência de dominós.
Sequência:
Reação: o sentimento do
protagonista quanto ao desastre.
Dilema: o protagonista processa o
desastre.
Decisão: o protagonista toma uma
decisão sobre como prosseguir.
A Sequência serve para impedir
que sua história tenha muito enredo (plot) e pouco desenvolvimento de
personagem, garantindo que o que aconteceu afete diretamente os envolvidos e
que o rumo seja decidido pelo próprio protagonista, e não por acontecimentos
arbitrários. A Decisão se torna o objetivo da próxima Cena.
O
problema
Isso tudo é verdade e funciona.
Porém, se enxergarmos a escrita apenas por esse ângulo, teremos uma versão
simplificada demais de algo muito mais complexo. Tentar estruturar tratando
esses pontos como um checklist cria uma urgência estranha e rápida demais.
Se você analisar obras
consagradas, verá que a estrutura é quase invisível. É como o motor de um
carro: você não o vê, embora o veículo funcione por causa dele. Digo isso
porque tentei fazer da forma engessada muitas vezes e acabava com conflitos
simples e com uma decisão que apenas empurrava a história alguns milímetros à
frente.
A verdade é um pouco mais
profunda: meu erro foi começar pela estrutura. E eu estive cega para isso por
muito tempo.
Eu li a teoria diversas vezes,
mas não conseguia entender como aplicá-la e, pior, não conseguia usar essa
estrutura na análise de cenas em livros de que gosto. As cenas desses livros
pareciam não seguir modelo nenhum. Nem tudo era conflito, nem tudo terminava
com uma divisão clara — especialmente em livros mais lentos, sem um enredo de
thriller baseado em acontecimentos externos, por exemplo. Parecia simplesmente
errado.
Então, me dei conta de que a
estrutura é invisível e, por isso, parece inexistente. A forma como normalmente
ensinam a cadeia de causa e consequência não se aplica a livros reais na
prática (mesmo que a corrente exista), porque, no dia a dia da escrita, o
avanço pode ser indireto.
Por isso, resolvi ensinar as
coisas que aprendi em minhas análises e apresentar uma visão alternativa: uma
cena começa com um conceito, passa por uma divisão de começo, meio e fim, e
somente então desenvolve a estrutura.
O
Conceito
Muitos artigos começam direto no
objetivo, conflito, desastre, reação, dilema e decisão. Mas uma cena começa na
necessidade de ela existir: em seu Conceito. Sem ele, não há o que estruturar.
Tentar aplicar a estrutura cedo demais apenas cria uma versão artificial onde
tudo parece existir porque o autor precisava marcar um item da lista (o que é a
morte de uma boa cena).
Mas o que é o Conceito? O
Conceito é uma versão resumida e direta da cena, deixando claro o que acontece.
Eu normalmente o edito bastante até ficar bem nítido, de forma que, só de
olhar, já se sabe o que será trabalhado. Um Conceito confuso apenas atrapalha o
desenvolvimento futuro.
Vamos usar a mesma historinha que
criei para o artigo de estrutura macro: a empregada que é apaixonada pelo seu
rei (e amigo de infância) e é rejeitada porque ele faz um casamento político, o
que a ensina a se valorizar. De agora em diante, o nome dela é Maggie.
Digamos que precisamos de uma
cena em que ela se sinta negligenciada e que mostre que o rei não é mais o
mesmo homem com quem ela cresceu. Um Conceito, por exemplo, seria assim:
Maggie compra um presente para o
seu rei, mas, por mais grato que ele pareça na hora, ele o abandona
imediatamente depois, fazendo Maggie pensar que provavelmente era um presente
pobre demais.
Por que funciona? Porque cobre a
cena toda, mesmo sem se aprofundar em detalhes. Isso já é o bastante para
enxergar o que vai acontecer. Crie alguns conceitos para testar, é divertido!
Eu geralmente não deixo passar de 40 palavras, pois prefiro que seja bem
conciso.
O
que vem depois do conceito?
Era o que eu comecei a me
perguntar. Então, voltei para o básico do básico: uma história tem começo, meio
e fim. Uma cena também. É muito comum ler que se deve começar o mais perto da
ação possível. O problema é que esse “possível” é vago, e muitas vezes o que
você corta não é desnecessário, mas sim parte da preparação (set up) que daria
sentido ao conflito. Isso acaba tornando a cena direta demais e, sem a
preparação inicial, o conflito pode parecer mais raso do que realmente é.
Comece a cena onde a cena começa.
Normalmente, isso é antes do conflito bater forte, mas já contendo a semente do
que vai acontecer. É o primeiro dominó a ser empurrado. Se suas cenas parecem
sem peso, as chances são de que falta set up, e não que você precisa cortar
mais introdução.
As cenas são muito mais longas do
que parecem na teoria; elas cobrem um escopo relativamente grande e
definitivamente não começam e terminam no conflito. Mais uma vez, pegue um
livro de que você gosta e abra em uma cena qualquer. Tenho certeza de que você
vai ficar surpreso com a quantidade de construção que existe antes da ação.
A forma como lidei com isso foi
pegar o conceito e desenvolvê-lo com começo, meio e fim. Isso o deixa muito
parecido com um resumo robusto e lembra mais a estrutura real de uma cena. Essa
divisão acontece em três parágrafos distintos:
Começo: Cobre o set up que inicia
o conflito; é onde você organiza as peças para o desenvolvimento da cena.
Termina com uma mudança irreversível.
Meio: Cobre o conflito em si e as
dificuldades do protagonista. Termina quando o conflito acaba.
Fim: É a Sequência. O
protagonista processa o resultado do conflito e decide o que fará a seguir.
Aplicando ao exemplo da Maggie, a
divisão fica assim:
Começo: Maggie vai a uma loja
comprar um presente para o rei, mas ela não tem muito dinheiro e compra algo
que acha que ele vai gostar por lembrar da infância deles.
Meio: Maggie espera o rei ficar
sozinho para presenteá-lo. Ele até parece grato... na medida do possível, mas
Maggie sente que tem algo errado.
Fim: Maggie encontra o presente
ainda dentro da embalagem, jogado debaixo da cama quando vai limpar o quarto
dele, e pensa que talvez ela seja pobre demais para a realeza.
É aí que entra a estrutura do
Dwight Swain (enfim).
Estruturando
uma cena
Agora que a cena em si já está
planejada com começo, meio e fim, a estrutura pode ser aplicada. Como eu tenho
dificuldade em pensar em respostas sem conexão direta entre as informações,
decidi reescrever o modelo tradicional em um formato de perguntas conectadas:
O que o protagonista quer?
(Objetivo)
Como ele pretende fazer isso?
(Objetivo externo)
Por que ele não consegue
simplesmente fazer? (Conflito)
A que isso leva? (Desastre)
E depois:
Como ele se sente?
(Reação)
O que ele considera? (Dilema)
E o que mudou quanto ao que ele
queria? (Decisão)
Ou, em forma de parágrafo
estruturado:
O protagonista quer [objetivo],
fazendo [objetivo externo], mas não pode fazer por causa de [conflito], e por
isso o que acontece é [desastre]. Isso o deixa [reação] e o obriga a considerar
[dilema], levando-o a buscar [decisão].
Vamos revisitar a Maggie
aplicando essa estrutura em formato de parágrafo:
Maggie quer agradar o rei
comprando um presente especial para ele, mas o rei não parece impressionado ou
feliz de verdade, apesar de palavras genéricas de gratidão. Para compensar,
Maggie limpa o quarto dele com mais afinco e encontra o presente ainda no
embrulho, jogado debaixo da cama. Isso a magoa profundamente, e ela considera
se desfazer do presente e se desculpar, mas decide fingir que não viu e apenas
voltar a ser a empregada perfeita.
Com a estrutura no lugar e a cena
planejada, é possível organizar tudo cronologicamente, garantindo que a cena
tenha conflito, propósito e mova a trama:
Maggie quer agradar o rei
comprando um presente, mas, como não tem muito dinheiro, decide comprar algo
que acha que vai fazê-lo lembrar da infância deles. Porém, quando finalmente
consegue encontrar o rei sozinho, ele não dá bola para ela. Ela até consegue
entregar o presente, mas a alegria e a gratidão dele parecem vazias e
mecânicas, o que deixa Maggie confusa. Por isso, ela limpa o quarto dele ainda
mais disposta e encontra o presente ainda dentro da embalagem, jogado debaixo
da cama. Profundamente magoada, Maggie considera jogá-lo fora e se desculpar,
mas decide fingir que não viu e voltar a ser a empregada perfeita.
E assim, uma cena nasce.
Quanto à decisão no final da
Sequência...
Lembra que lá no início eu falei
que a estrutura tradicional diz que a Decisão se torna o objetivo da próxima
cena? Pois bem, vou ser direta: não é bem assim. A realidade é mais complexa.
Se seguirmos essa lógica ao pé da letra, parecerá que a história se move em uma
linha reta perfeita: A > B > C > D... E esse não é o caso.
A cadeia de causa e consequência
em uma história real está mais próxima de: A > B > A.1 > A.2 > C > B.1 > D...
Pense em um clássico: Harry
Potter e a Pedra Filosofal.
Se
você analisar as cenas, o Harry não fica investigando o mistério em linha reta
o tempo todo. Ele estuda, sofre na mão do Snape, ajuda o Hagrid com o dragão
Norberto, joga quadribol, briga com o Draco, fica obcecado com o Espelho de
Ojesed, etc. Não é uma sequência limpa.
A decisão de uma cena não se
torna necessariamente o objetivo da próxima; ela se torna uma nova força sobre
o personagem. Significa que, depois daquilo, algo mudou irreversivelmente. O
que é criado não é um objetivo externo imediato, mas sim a vontade interna do
personagem.
No caso da Maggie, a próxima cena
não precisa ser sobre o presente. Ela precisa refletir a decisão de Maggie de
se tornar perfeita e invisível para o seu rei. Talvez ela decida não o
incomodar no dia seguinte, ou limpe a sala do trono sem puxar assunto, ou evite
se meter nas decisões das cozinheiras... É assim que se cria uma cadeia natural
de causa e consequência que vai muito além do básico “X quer Y, mas Z
acontece”.
Uma história não costuma seguir
apenas uma linha reta óbvia: ela se move pelas bordas, infiltrando-se na vida
dos personagens e criando pontos de pressão. Pense em quanto tempo levou para o
Viajante, em A Máquina do Tempo, visitar o Museu de Porcelana Verde depois de
tê-lo visto pela primeira vez. A história e a estrutura macro governam o enredo
(plot), que é apenas o nome dado à sequência natural de causa e consequência
que você monta para guiar a narrativa do começo ao fim.
Cenas
não convencionais
Há cenas que tratam de coisas
fora da cronologia direta, e acho importante abordar esse ponto: recursos como
cartas, flashbacks, flashforwards e saltos temporais. Todos são escolhas
narrativas válidas e, muitas vezes, necessárias. Não dá, por exemplo, para
mostrar cada dia de um ano inteiro de passagem de tempo entre uma cena e outra.
Fique tranquilo, porque a
estrutura também cobre essas escolhas. Elas seguem, de forma geral, a mesma
progressão, mesmo que o conteúdo esteja fora da ordem cronológica.
O resumo temporal pode ser
integrado ao início da cena e usado para dar contexto antes de o conflito
entrar com tudo. Dessa forma, não há confusão quanto ao tempo, e a estrutura
segue limpa (“Já se haviam passado três semanas desde que X aconteceu...”).
As cartas também podem integrar o
conflito ou o set up, especialmente se afetarem diretamente a percepção do
protagonista. Um exemplo clássico é a carta de Darcy para Lizzie, em Orgulho e
Preconceito, que marca a mudança na forma como ela o enxergava.
Flashbacks e flashforwards são
muito bem exemplificados pela Penseira em Harry Potter, especialmente no último
livro, As Relíquias da Morte. O passado se torna parte essencial do conflito
atual, trazendo revelações que alteram diretamente as ações do protagonista.
A estrutura não é cronológica por
si só; ela apenas organiza as informações de forma que o leitor as entenda como
início, meio e fim. Portanto, o conteúdo, mesmo não sendo linear, não altera
sua composição básica.
Veja como a carta se torna parte
essencial do conflito no caso da Maggie:
Maggie queria testar se o rei
ainda era o mesmo homem que ela amava desde a infância, pedindo que ele fosse
com ela até o jardim. Porém, no caminho, ela encontra uma carta endereçada a
ela detalhando como a decoração do casamento real seria feita. Por causa disso,
ela descobre que o rei marcou um casamento político — sem sequer avisá-la sobre
quem seria a noiva.
Resumo
Uma cena não nasce da estrutura
em si, mas do seu conceito.
O objetivo é garantir tempo
suficiente para que os eventos se desenrolem de forma natural e inevitável para
os personagens. A boa estrutura é invisível durante a leitura.
É por isso que uma cena precisa
de começo, meio e fim: para não parecer apenas enredo pelo enredo.
A estrutura do Dwight Swain
funciona muito bem para garantir que os eventos externos afetem e sejam
afetados pelos personagens, mas ela rende mais quando aplicada a uma cena já
planejada.
Os personagens não estão apenas
resolvendo problemas de enredo; eles estão sentindo a pressão desses problemas
no dia a dia e tomando decisões baseadas nisso.
No fim, uma cena pode ser
resumida como uma pequena versão da estrutura macro. Sempre que um ciclo se
completa, nasce a necessidade de uma nova cena.
O uso desse conhecimento em
contos: um extra!
Mesmo que este artigo seja sobre
a construção de cenas, esse modelo também serve perfeitamente para a estrutura
de contos. Histórias curtas geralmente não têm mais do que uma ou duas cenas.
Como a estrutura macro de um livro inteiro é muito densa, ela funciona melhor
para obras longas, como novelas ou romances. Histórias breves se beneficiam
muito mais utilizando a estrutura micro de cenas, pois isso evita que o conto
fique rápido demais ou superlotado de acontecimentos.
Conclusão
Esse entendimento foi o meu
divisor de águas. Antes disso, minhas tentativas de estruturar e escrever cenas
falhavam a todo momento e eu não sabia o porquê. Agora eu entendo: eu estava
pensando apenas em uma corrente óbvia de causa e consequência que deixava o
esqueleto da estrutura exposto.
Mesmo que a estrutura seja o que
mantém uma obra de pé, não devemos esquecer que a verdadeira história é mais
densa do que apenas o conflito isolado. O esqueleto precisa ficar invisível
debaixo dos músculos e da carne. Compreender isso me ajudou a respirar e a
planejar melhor o set up e a resolução, o que melhorou muito o fluxo das minhas
histórias.
Espero ter esclarecido a
construção de cenas para você. Boa sorte e boa escrita a todos!